Como tirar a amígdala da mesa de negociação
Como impedir que reações impulsivas sabotem acordos, reputações e relacionamentos.
Ao longo da vida, todos nós passamos por situações em que perdemos o controle das emoções e pagamos caro por isso. Uma reação impulsiva pode prejudicar uma negociação, inviabilizar uma amizade e até comprometer um relacionamento. Depois do “caos”, vem a pergunta inevitável: onde foi que a razão perdeu para a emoção?
A neurociência ajuda a explicar. Existe no cérebro uma estrutura neural chamada amígdala (não confundir com a amígdala da garganta), que funciona como um radar emocional. Ela guarda um repertório de memórias emocionais associadas a experiências reais, como medo, raiva, rejeição, humilhação e ameaça. Também dispara alertas quando percebe algo semelhante acontecendo. Em geral, ela reage a situações de perigo iminente, sensação de fracasso, conflito e outras experiências repentinas.
Como ela se forma?
Segundo David Eagleman, autor do livro “O Cérebro”, a amígdala vai aprendendo ao longo da vida quais estímulos estão associados a experiências emocionalmente marcantes: perigo, humilhação, rejeição, conflitos, agressões e situações que atingem nossas vulnerabilidades e inseguranças.
De forma parecida com um sistema computacional que “grava padrões”, a cada situação vivida, a amígdala registra a reação na memória emocional. E, quando no futuro surge algo semelhante, ela pode ser ativada antes de haver tempo para que o córtex pré-frontal (ligado a planejamento, autocontrole e avaliação de consequências) processe a situação com racionalidade.
Por isso, a amígdala funciona como um acelerador emocional. Quando dispara forte, o corpo entra em modo de sobrevivência e a prioridade deixa de ser “ser justo ou ponderado” para virar “não perder”, “não ser humilhado”, “não ser ameaçado”. Diante do sentimento de fracasso ou rejeição, pode ocorrer um apagão racional: raiva, ansiedade e impulso de atacar surgem antes mesmo de a parte racional entender o que aconteceu.
E aí, se o “freio” falha, se o córtex pré-frontal não entra no jogo, a pessoa pode explodir, atacar, romper acordos, insultar ou tomar decisões impulsivas.
Curto prazo vs longo prazo: a disputa interna
Essa relação entre amígdala e córtex pré-frontal é como um debate interno entre:
Forças de curto prazo: impulso, grosseria, recompensas imediatas, reação;
Forças de longo prazo: planejamento, valores, objetivo final, reputação.
O desafio, especialmente em negociações, é treinar o cérebro para mitigar o risco das reações quando a pressão sobe. A pergunta então vira: como racionalizar padrões emocionais?
Um ponto de partida é identificar vulnerabilidades, fraquezas e principalmente, simular aquilo que desperta as emoções para se preparar com antecedência. Não é fácil, porque tudo acontece rápido. Mas, muitas vezes, o gatilho vem de comportamentos recorrentes: o comportamento pode nos surpreender; a pessoa que costuma agir assim, geralmente não.
Algumas dicas práticas para “racionalizar” emoções
1) Reconheça a emoção (e o gatilho)
Comece pelo básico, sem autoengano:
O que normalmente te tira do sério?
Por quê?
Qual é o motivador da sua reação? Interrupções? Ironia? Tom de desrespeito?
Aqui é preciso humildade: em geral, as reações estão relacionadas a críticas que expõem vulnerabilidades e inseguranças. Uma reflexão importante: não se trata do que o outro está fazendo - e sim da sua responsabilidade sobre a sua reação. Identificar o gatilho é o primeiro passo para criar mecanismos de proteção.
2) Simule conversas difíceis
Depois de identificar os gatilhos, simule mentalmente conversas difíceis. A ideia é “ensaiar” possíveis emoções e reações para descobrir, com calma, quais atitudes estão mais alinhadas aos seus princípios e valores.
Esse exercício treina o cérebro para agir com mais maturidade quando a situação real acontecer, evitando grosseria, agressividade e impulsividade. A grande vantagem é preventiva, pois após um ato de desrespeito ou violência, você só administra as consequências, já que o estrago está feito.
Antes de uma conversa difícil, vale entrar com um lembrete simples:
“Eu não estou indo para vencer uma briga. Estou indo para construir uma solução. Meu alvo é o acordo, não a disputa.”
3) Crie atraso entre impulso e ação
Se você conhece suas fragilidades emocionais, crie um pequeno intervalo entre o impulso e a resposta. Segundos podem evitar arrependimentos irreversíveis.
Uma técnica que funciona para mim em momentos de subida emocional é apertar com força a palma da mão. A dor leve “puxa” a atenção e me dá tempo para perceber o que está acontecendo. Esse tempo ajuda o córtex pré-frontal a entrar no jogo e avaliar consequências.
Outras formas simples de criar atraso:
Respirar e contar até 10;
Levantar da mesa por um minuto;
Não responder e-mail no auge da emoção.
A lógica é treino: toda vez que você sente o impulso e escolhe uma resposta mais construtiva, você fortalece as conexões entre o pré-frontal e os sistemas emocionais. Com o tempo, fica mais fácil “frear” no automático.
4) Reconheça o “alerta da amígdala” em tempo real
Você não controla o disparo inicial da emoção, mas pode perceber quando ela está subindo.
Sinais clássicos:
Corpo: aperto no peito, calor no rosto, mandíbula travando, vontade de interromper/atacar.
Pensamentos automáticos: “Que absurdo!”, “Ele está me desrespeitando”, “Não vou deixar barato”.
Perceber é essencial, porque, sem percepção, você vira passageiro da própria reação.
5) Racionalize a emoção: transforme impulso em pergunta
Aqui você pega o que a amígdala sentiu e traduz em algo útil para a negociação.
Em vez de:
“Ele está me atacando, vou revidar.”
Pergunte:
“O que eu ganho se responder na mesma moeda? E o que eu perco?”
Você continua firme, mas tira gasolina da fogueira. E, de novo, toda vez que você escolhe uma resposta mais construtiva, você fortalece o caminho do autocontrole.
Conclusão
Ninguém gosta de ser desrespeitado e quase ninguém se orgulha de ser grosseiro. Ainda assim, trocamos de lado com facilidade quando estamos no modo ameaça: reagimos por miopia, impulsividade ou ignorância do próprio funcionamento emocional. A boa notícia é que nunca é tarde para reduzir o poder da amígdala e evoluir.
É quase impossível não levar a amígdala para uma conversa. Mas é fundamental supervisioná-la em tempo real. Ela dá sinais claros no corpo e na mente. Reconhecer esses sinais permite criar espaço para o córtex pré-frontal participar da decisão.
No fim, fica a pergunta que é fundamental ter em mente: como você quer ser lembrado?
Como um líder respeitoso, assertivo e acolhedor? Ou como um líder truculento, desrespeitoso, sem sensibilidade nas relações humanas?
Quando adotamos um estilo agressivo que confronta nossos valores, o maior perdedor somos nós mesmos. Talvez não tenhamos controle sobre todas as consequências dos nossos atos, mas somos responsáveis por eles.
Palavras podem não salvar vidas. Mas a forma como você conduz uma conversa pode comprometer seu objetivo final e inviabilizar negociações e relacionamentos. Por isso, vale treinar: escutar mais, observar mais e vigiar as próprias atitudes. Ao deixar a empatia e o respeito guiarem a nossa postura, tendemos a ser mais respeitados, mais admirados e, no fim, mais felizes, porque irradiamos boas energias e viramos boas referências.
“Não são as coisas que nos perturbam, mas os julgamentos que fazemos sobre elas.”
— Epicteto
Bio
Hélio Maurício, executivo C-level, liderando há mais de 30 anos negociações complexas, envolvendo orçamentos acima de 100 milhões de reais e transformando impasse em acordo - sem perder a relação. Se você se identificou com as situações deste texto, acompanhe minhas publicações no Substack e no LinkedIn. Quando necessitar de apoio no seu desenvolvimento como negociador e líder, me procure no linkedin.com/in/heliomauricio.


